comunicacao.eliane 02 de março de 2011 at 17:41h

Exposição retrata trabalho e participação da mulher pioneira de Toledo

Foi aberta na segunda-feira, 1º, e continua até o final do mês a exposição Mulher Pioneira de Toledo, numa homenagem as primeiras mulheres de Toledo, que chegaram ao município na década de 40. A atividade também integra a programação do Dia da Mulher, comemorado no dia 8 de março, e foi prestigiada por autoridades e mulheres pioneiras, lideranças locais e integrantes dos Centros de Revitalização da Terceira Idade da Vila Pioneiro e do Jardim Coopagro. A abertura também contou com um coquetel com receitas antigas, buscadas entre as mulheres da época e que integravam o cardápio de ocasiões especiais.
A exposição reúne peças do acervo do Museu Histórico e especialmente cedidas para a ocasião. No hall do Museu, explica a coordenadora, Lourdes Barbieri, foram montados diversos espaços, reproduzindo situações e o trabalho das mulheres. São vários ambientes, como o local onde as mulheres lavavam roupas, no rio Toledo, utilizando uma tábua, hoje objeto desconhecido pela grande maioria das crianças. O tanque de lavar roupas veio algum tempo depois. Foram instalados 14 tanques, um ao lado do outro, onde as mulheres lavavam a roupa e também aproveitavam para colocar a conversa em dia. Outro ambiente mostra a mulher auxiliando o marido na roça, levando junto os filhos, inclusive o de colo, colocado em uma cesta, além da vestimenta. “As mulheres não podiam usar calças, como hoje”, lembra Ana Beatriz Barth Costamilan, filha de pioneiros, que veio a Toledo com apenas cinco anos de idade. Entre as que iam para a lavoura, no entanto, observa–se a calça sob o vestido e a camisa de manga longa para proteger-se do sol e dos mosquitos, que eram muitos.
Ana Beatriz, que trouxe para a exposição um jogo de jantar, presente de casamento dos pais, lembra que para as crianças tudo era festa na época. Vinda de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, ela conta que não sentiu muito a diferença, como sua irmã maior, ambientada em uma cidade grande. Para ela, aos cinco anos, tudo era novidade e ela gostava muito de brincar na mata, subir em árvore, catar coquinhos e brincar de esconde-esconde em baixo da casa. A brincadeira durou até a mãe encontrar uma enorme cobra escondida no porão. A casa, construída em meio a uma clareira aberta no meio da mata, contava com poucos vizinhos.
Ana Beatriz, que veio para Toledo em 15 de março de 1950, foi uma das primeiras alunas do colégio Imaculado Coração de Maria (Incomar), que é hoje um dos maiores colégios particulares de Toledo. Com dez anos e para poder continuar os estudos, ela voltou para Porto alegre, onde estudou em um internato, juntamente com outras irmãs. A alternativa era comum entre aqueles que podiam mandar os seus filhos para estudar fora. O colégio era só até a quarta série. Depois, quem podia, colocava os filhos em colégio interno para continuar a sua formação. “A gente entrava em março e retornava para casa em julho, nas férias. E naquela época não tinha telefone ou internet. A única forma de comunicação era através de cartas”, relata.
Os primórdios da escola também estão sendo mostrados, com o registro das primeiras irmãs que chegaram à cidade, Verônica Sawtczuk, Lúcia Mikosz e Elia Bassani, em 1948, e o trabalho que desenvolveram auxiliando na fundação da primeira escola de Toledo. Elas ajudavam em tudo, inclusive na construção, uma vez que os homens estavam envolvidos em outros trabalhos. “Eles prepararam e deixavam as tábuas numeradas e elas se encarregavam da construção”, conta Lourdes. Entre as peças expostas estão também um sacrário, pintado a mão e reunindo restos de tintas doados por moradores, uma vez que não existia este material à venda.
A mostra também conta com depoimentos de pessoas já falecidas, como a primeira mulher a chegar a Toledo, Virgínia Ruaro, esposa do fundador, Zulmiro Ruaro. Zulmiro chegou a Toledo em 27 de março 1946 liderando a primeira caravana de 14 homens que chegou e se estabeleceu às margens do rio Toledo. Alguns meses depois, ele buscou a esposa e filhos para residir em Toledo. Ela conta que por muito tempo cozinhou sozinha para um grupo de cerca de 100 trabalhadores.
Cozinhar naquela época não era uma tarefa fácil. As opções não eram muitas e dependiam do que se caçava e do que se plantava. No início, quando chegavam, as famílias traziam alguns mantimentos, mas esgotados era preciso repor o estoque. Alimentos básicos, como farinha, açúcar, vinham da Argentina, mas quando os caminhões ficavam atolados no caminho por conta da chuva e atrasavam a entrega, as mulheres se embrenhavam na mata a procura de raízes que servissem para a alimentação do grupo.
Dona Odila Ângela Formighieiri, de 86 anos, que veio a Toledo em 1947, grávida do terceiro dos seus sete filhos (quatro mulheres e três homens), compara os tempos antigos com os atuais e não tem dúvidas de que naquela época era melhor. “Gostaria que voltasse aquele tempo. Era muito difícil sim, mas as pessoas eram mais solidárias e respeitavam o que era dos outros. Eram poucas famílias e muito unidas, porque uma precisava da outra para sobreviver”, diz ela. Para dona Odila, que gerou a primeira mulher nascida em Toledo, Anilse Odiles Formighieri, que reside ainda em Toledo e igualmente prestigiou a exposição, era preciso muita coragem para vir para cá, especialmente grávida e sem a existência de médico. O trabalho de parto foi auxiliado por uma parteira, cuja participação deste profissional também é mostrada na exposição. Os cuidados com as crianças e outros doentes incluíam apenas remédios caseiros.
A família Formighieri construiu em Toledo a primeira serraria e enfrentou muitos desafios, como falquejar tábuas de madeira com serrote e machado, coisa impensável hoje com os equipamentos elétricos existentes.
Apesar das adversidades, mulheres e homens também tinham opções de lazer. Elas são mostradas em retratos da primeira miss Toledo, nos bailes de gala do clube do Comércio, na entrada da primavera, nas roupas bem cosidas e cuidadas, nas festas juninas, entre outras atrações. A exposição permanece aberta ao público de segunda a sexta-feira, das 8 às 11h45min e das 13h30min às 17h30min, no Museu Histórico Willy Barth, no segundo piso do prédio da Biblioteca Pública, no centro. A exposição, organizada pelo Museu Histórico, é uma iniciativa conjunta com a Secretaria de Atendimento à Mulher.