O Centro Cultural Ondy Hélio Niederauer foi palco, no último sábado (12), da 2ª Conferência Municipal de Políticas para Mulheres. Durante todo o dia, foram discutidos os rumos, a construção de novas ações e estratégias para a consolidação do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, além de aprovar as propostas a serem encaminhadas para a Conferência Estadual. O encontro também serviu para apontar as duas delegadas representantes da sociedade civil para participar do evento em nível estadual.
As quatro pré-conferências ordinárias e as 11 conferências livres elencaram mais de 130 propostas relacionadas à estrutura organizacional da política para mulheres no município de Toledo. A secretária de Políticas para Mulheres em Toledo, Jaqueline Machado, afirmou ser preciso ampliar, avançar e consolidar o atendimento das demandas das mulheres. “E mais do que isso, é necessário à compreensão de que está não é uma tarefa solitária e sim compromisso de todas as Políticas Públicas. Entendendo que muitas das vulnerabilidades emergentes em nossos cotidianos são oriundas das relações de gênero historicamente construídas”.
Jaqueline também apresentou, durante a abertura da Conferência, números relacionados à violência contra as mulheres. “Não podemos mais nos silenciar diante desta situação contra nós mulheres”. Ela trouxe alguns dados da Delegacia da Mulher. “Tenho as tristes estatísticas da Comarca de Toledo que somou neste ano 284 inquéritos instaurados, sendo 29 no último mês, destes 1 feminicídio. Isso é caso de Política Pública e não somente de Polícia”.
Em sua fala, o prefeito Beto Lunitti destacou a atuação do Governo Municipal no intuito de diminuir as desigualdades de gênero. Beto lembrou que o município tem oferecido publicidade as ações da Secretaria de Politicas para Mulheres, bem como investido no aparelhamento de alguns setores. “Estamos estruturando o nosso ‘Aluguel Social’ para as mulheres em risco de violência e aguardamos uma definição por parte do Governo do Estado para o novo prédio da Delegacia da Mulher. Nos dispomos a pagar o aluguel deste imóvel, mas ainda não obtivemos uma resposta”. Beto ainda cobrou que cada esfera de Governo assuma o papel que lhe cabe nas políticas públicas em prol da igualdade de gênero.
No evento também estavam presentes o presidente da Câmara Municipal, vereador Ademar Dorfschmidt, a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Miraci Gazzoni, a vereadora e presidente da comissão organizadora da Conferência, Sueli Guerra, a palestrante Janeslei Albuquerque e a homenageada pela organização do evento, Elizabeth Saija, primeira professora do município de Toledo.
Homenagem
Durante a abertura da Conferência de Políticas para Mulheres a primeira professora de Toledo, Elizabeth Saija, foi homenageada pela organização. Ela produziu um relato histórico do papel dela, enquanto mulher, no desenvolvimento do município.
“Era o mês de novembro de 1949 quando aqui aportamos. Toledo não passava de uma vila.
Reportando-me à década de cinquenta, quando em 1953 assumia a atividade na condição de professores leiga que tudo começou a Vila Operária, na época conhecida como pedreira. Creiam-me, cheguei a pensar em desistir, pois como menos de quinze anos, minha idade na época, já tinha noção das obrigações e responsabilidades que me aguardavam. Mas com a falta de professores qualificados e a nova geração que surgia tinha que ser ao menos alfabetizada resolvi seguir em frente. Assim é que hoje aqui estou na condição de primeira professora no município.
Foi um tempo de muita dificuldade e luta. Muitas vezes nos obrigávamos a usar a imaginação e o improviso, pois as instalações eram precárias e o material didático inexistente. Não havia mapas, livros, etc.
Citarei apenas uma maneira improvisada para fazer com que, nas aulas de matemática, os alunos conseguissem entender melhor as tais frações ordinárias. Utilizando uma faca de mesa, cortava uma laranja, banana ou batatinha, em determinada quantidade de pedaços, juntando-os depois para que entendessem o que era colocado acima do ‘tracinho’. Contávamos o restante das partes cortadas e somávamos ao que já tinha sido retirado e colocávamos na parte inferior do ‘tracinho’, donde surgiram o numerador e o denominador. E podem crer, o improviso funcionava.
As dificuldades encontradas para levar a escolar a desfilar num Sete de Setembro também foram enormes. A Prefeitura nos forneceu uma Bandeira do Brasil e outra do estado do Paraná. Para os pais providenciarem os uniformes foi outra dificuldade, pois quando podiam comprar o chamado guarda-pó, não podiam comprar o calcado. Assim é que solicitando os tecidos nas lojas e mães que sabiam costurar fazendo-os, conseguimos levar a escola para seu primeiro desfile. Além da vitória foi uma grande satisfação para todos os alunos.
Para chegarmos até a escola tínhamos que atravessar um pontilhão sobre o Rio Toledo. Em época de muita chuva, o rio transbordava. Quando a água atingia os tornozelos conseguíamos passar, porém quando a água chegava aos joelhos o recurso era voltar e a aula não acontecer.
Lecionei também no grupo escolar. Na época era apenas Grupo Escolar, hoje Colégio Estadual Luiz Augusto Morais Rego, e a diretora era a Sra. Ana Rosa Maciel. Para nós, Dona Rosinha. Quando da inauguração do mesmo coube a mim fazer a saudação do governador Moisés Lupion, em visita ao município. Lecionei também em uma escola mantida pela Prefeitura na Igreja Luterana.
Enquanto isso Toledo crescia, a população aumentava, novas escolas e surgiam e a união da população era uma realidade.
Lembro-me dos bailes que eram realizados no piso superior da rodoviária que era cedida por seu proprietário, Senhor Alcido Leonardi. Enquanto nós, as mais jovens, cuidavam da limpeza, arrumação das mesas, lavagem dos copos, as senhoras de então preparavam os quitutes a serem degustados durante o baile cujo som era proveniente de um conjunto formado por um violão, pandeiro e uma sanfona. Os bailes começavam as nove da noite e terminavam ao amanhecer.
Mas paralelo a isso tudo convem ressaltar que, tanto as autoridades, quanto a população muito fizeram para que a arte, a educação e a cultura não fossem relegadas.
Lembro-me que em 1954 formamos um grupo teatral. A peça teatral em três atos (não lembro o nome do autor) intitulava-se ‘Glória Funesta’ e foi apresentada no cinema local. Nós éramos os atores, montadores de palco, os figurinistas, enfim tudo que se fizesse necessário.
Como não tínhamos recursos para montagem do palco, bem como dos figurinos, apelávamos para a população que nos emprestava o que fosse necessário, inclusive senhoras da época abriram seus guarda roupas para que montássemos nossos trajes, incluindo até estolas de peles. E creiam, o sucesso foi total.
Organizávamos baile com desfile de modas no Clube do Comércio. O sucesso era tanto que em um dos desfiles fomos convidadas à reapresentá-lo em Marechal Cândido Rondon. Lá fomos representar Toledo.
Quando surgiu a primeira rádio em Toledo, apareceu um radialista resolvendo fazer uma rádio novela. Também lá marcamos presença. Ajudamos a fundar um CTG. Colaborávamos nas festas que a igreja fazia para angariar fundos. Ajudávamos na montagem do presépio na época de natal, na ornamentação do altar, fazíamos parte do coral da igreja.
Neste instante chego a sentir um pontinho de orgulho por termos sido tão presente na formação desta cidade e saber que, a sementinha que ajudamos a plantar brotou, cresceu e frutificou. Frutificou tanto que na educação e cultura esta cidade chega a ser exemplo para outras da região.
Deixo de citar o nome de todos quantos me acompanharam nessas jornadas, pois temo que, por um lapso de memória venha a esquecer de alguém. Mas deixo aqui a todos eles, o meu respeito, admiração e carinho.
Quero finalmente apresentar meus agradecimentos. Primeiramente a Deus, e em particular a cada um de vocês que colaboraram para que este momento acontecesse e eu aqui pudesse relembrar fatos ocorridos nestes longínquos sessenta e dois anos.
Muito obrigada a todos e em particular aos amigos Joana e Aristóteles, o Toti.
Para vocês que lutam pelos direitos das mulheres, deixo aqui minha mensagem: ‘Por maior que sejam os desafios, jamais desistam. Pois toda a luta é valida, quando o objetivo é nobre’.
Muito obrigada”.
