A terceira etapa do ciclo Diálogos para a Sustentabilidade, encontro preparatório para o Cultivando Água Boa 2016 (CAB 2016), lotou o Teatro Municipal nesta sexta-feira (04), em Toledo. Centenas de pessoas participaram do evento que trouxe ao município o teólogo, escritor e professor universitário brasileiro Leonardo Boff. A ação foi promovida pela Itaipu Binacional, por meio do Programa Cultivando Água Boa, com apoio da Prefeitura. O evento também passou por Matelândia, Cascavel e após Toledo chega a Guaira, no sábado (05).
Na abertura do encontro em Toledo, o prefeito Beto Lunitti acolheu aos participantes – pessoas dos mais variados segmentos públicos e privados – e lembrou que é preciso fortalecer as discussões sobre o desenvolvimento econômico e social. “É necessário fortalecer a vida, por meio de políticas humanas, gerando emprego e renda para todos, porém respeitando o meio ambiente”. Beto reforçou que ao citar o meio ambiente não se referiu apenas à fauna e à flora, mas sim todo o contexto da cidade e do campo. O prefeito toledano também acolheu os representantes da Itaipu no evento, destacando a presença do teólogo Leonardo Boff e o diretor de Coordenação de Itaipu, Nelton Friedrich.
Após a acolhida do prefeito e de apresentações culturais, Nelton Friedrich, explanou sobre o Programa Cultivando Água Boa e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Nelton fez um relato sobre os resultados da 21ª Cúpula do Clima de Paris, a COP 21, da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada na França no ano passado. Friedrich ainda destacou a participação de Leonardo Boff, nos encontros preparatórios para o 13ª CAB. “Ele esteve presente no primeiro encontro e agora estamos vivenciando, de forma mais efetiva, esta participação do escritor na história do CAB, por meio destes diálogos”, disse.
Mas o momento mais aguardado pelos participantes do encontro era a fala de Leonardo Boff. Conversando de forma muito próxima com os presentes, Boff citou a última encíclica papal, ‘Louvado Sejas, sobre o cuidado da casa comum’, lançada pelo papa Francisco em junho passado, com o tema meio ambiente. “É uma encíclica para a humanidade e não somente para os cristãos, porque o problema é humano, é global e todos tem que dar sua colaboração. O papa reuniu dados científicos e deu uma visão espiritual para estas coisas”.
O escritor ainda citou a sustentabilidade e a participação na COP 21. “Pela primeira vez, depois de 21 reuniões e várias delas eu participei, houve um consenso das 192 nações de não permitir que cheguemos a 2º Celsius de aquecimento, porque se chegar será difícil administrar o Planeta Terra. Todos são convidados, conforme sua capacidade, a impedir o crescimento do aquecimento global e o Brasil teve metas importantes propostas no encontro”. Boff também fez uma alusão ao prefeito Beto Lunitti em sua fala, citando o ideal ético proposto por Mahatma Gandhi da “política como gesto amoroso para o povo e como cuidado com a coisa pública”. O teólogo disse conhecer muitos prefeitos e líderes, mas nunca viu nenhum colocar a vida e a felicidade das pessoas como pilar central do seu governo, como fez o prefeito toledano Beto Lunitti.
Entrevista coletiva
Antes do encontro Diálogos para a Sustentabilidade, o teólogo Leonardo Boff atendeu a imprensa em entrevista coletiva. Ele respondeu aos questionamentos dos repórteres presentes e agora destacamos alguns pontos abordados.
Sustentabilidade: “Devemos libertar a categoria sustentabilidade do tipo de desenvolvimento que temos e que não é desenvolvimento, é crescimento material e medido pelo Produto Interno Bruto (PIB). Esse é insustentável, porque ele atende a 1,6 bilhões de pessoas e deixa quase 6 bilhões fora. Se nós pensarmos sustentabilidade como toda aquela ação que permite a educação, a política e tudo correr fluentemente, se reproduzir, ela é um dado fundamental de todos os seres vivos. Se você não sustenta, não segura, eles vão definhando e desaparecem. Então a sustentabilidade é fundamental, mas precisa entrar em todas as dimensões, não só a econômica”.
Encíclica Papal Laudato si': “Eu me sinto meio constrangido porque a encíclica é do papa, não minha. Mas ele me pediu e quis aproveitar o que a América Latina fez sobre a Ecologia e por três vezes pediu minha colaboração e textos e para minha surpresa os eixos básicos daquilo que nós refletimos no Cultivando Água Boa, nos meus escritos, estão lá dentro e ele (papa Francisco), teve a gentileza de no dia anterior a publicação da encíclica me mandar um agradecimento especial pela colaboração, mas a encíclica é dele e eu estou feliz por esta perspectiva nossa aqui de superar somente uma visão ambientalista, mas implantar uma visão integra, e não falar terra, falar casa comum, porque casa é uma coisa do coração, coisa de família, já terra é um planeta, uma coisa física, e por falar ‘mãe terra’, porque ela nos dá tudo aquilo que precisamos. Ele (papa) assumiu esses dados básicos, universalizou ao ponto dos grandes ecologistas mundiais hoje dizerem que o Papa está na ponta da reflexão ecológica mundial, ele está além do que se vinha dizendo comumente. É uma encíclica para a humanidade e não somente para os cristãos, porque o problema é humano, é global e todos tem que dar sua colaboração e o Papa deu a dele. Procurou os dados mais científicos e deu uma visão espiritual para estas coisas, porque se nós não tivermos uma aura que cerque tudo isso, a estrela não pode brilhar”.
COP 21: “O que foi votado lá na 21ª Cúpula do Clima de Paris, a COP 21, não é obrigatório. Mas pela primeira vez, depois de 21 reuniões e várias delas eu participei, houve um consenso das 192 nações de não permitir que cheguemos a 2º Celsius de aquecimento, porque se chegar será difícil administrar o Planeta Terra, então todos são convidados, conforme sua capacidade, a impedir o crescimento do aquecimento global e o Brasil teve metas importantes de diminuir desmatamentos. Acredito que agora temos um documento de referência, para pressionarmos as empresas e os estados para que cumpram o que foi decidido por todos e aí forçar para que eles efetivamente façam, embora este documento não tenha o caráter de uma lei, mas é um compromisso sério, onde o centro não é mais o desenvolvimento só, mas é o Planeta Terra, o sistema vida que está em jogo”.
Teologia da Libertação: “A Teologia da Libertação nasceu ouvindo o grito do oprimido e hoje temos o grito da terra oprimida. Então enquanto ouvir gente que grita, houver pobres, houver marginalizados, e estes estão crescendo no mundo inteiro, há sentido em falar de libertação, inspirados não em (Karl) Marx, porque ele nunca foi o pai ou padrinho da Teologia da Libertação, mas sim inspirados na própria figura de Jesus, que foi libertador, e na tradição profética de pessoas como Dom Hélder Câmara – foi um religioso, bispo católico e arcebispo emérito de Olinda e Recife. Ficou conhecido internacionalmente pela defesa dos direitos humanos. Recebeu diversos prêmios, entre eles, o Prêmio Martin Luther King, nos Estados Unidos e o Prêmio Popular da Paz, na Noruega – e hoje é a grande teologia que vem do terceiro mundo e criou um papa (Dom Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco, religioso argentino), que vem da Teologia da Libertação, na versão argentina, que partia da cultura oprimida, do povo silenciado, e a partir da fé tentar libertar. É uma teologia viva, atual, porque o problema continua crescendo, e nós temos que nos empenhar para que junto com essa libertação, incluamos a casa comum, o planeta Terra, que também está oprimido e incluído dentro da opção pelos pobres. Ela é o grande pobre”.
Agroecologia: “No mundo inteiro ela constitui um movimento dos mais sérios, mesmo no Brasil a agroecologia, as cooperativas, a agroecologia familiar, cada vez mais ganha adesões, porque todo mundo está interessado em uma alimentação sadia, menos químicalizada. Eu acho que o futuro do desenvolvimento agrário caminha nessa direção. Com cooperativas não muito grandes, pequenas, redes imensas de produtores, e no Brasil já há uma articulação nacional, há uma instância ligada a Presidência dirigida por Paulo Singer, que é pra apoiar essa agricultura ecológica e familiar. Então é uma esperança de que alternativas estão sendo realizadas não só prometidas, elas tem grande futuro por que ajudam a saúde dos seres humanos e a saúde da própria terra, por que se poupa a terra dos agrotóxicos e poluição do ar, dos solos, das águas, que é uma forma de você ter uma relação mais benigna, mais amiga com a casa comum”.
Mensagem: “Que o Brasil seja um povo democrático, participativo que não se deixe reduzir a uma massa de consumidores, mas que sejam cidadãos conscientes que saibam escolher os seus representantes, que participem e que lutem para melhorar a democracia, não só a democracia delegatícia que se delega pelo voto, mas uma democracia participativa, onde os movimentos sociais que são grandes possam ajudar o Brasil a pensar novos sonhos, pressionar o poder público para certas políticas que beneficiam as grandes maiorias que estão à margem. Então eu acho que o Brasil pode ser um pequeno ensaio daquilo que é a futura civilização, uma biocivilização, onde o centro é a vida, vida humana, vida da natureza, vida do Planeta Terra. Nós temos tudo para dar certo, talvez o único país que pode inaugurar o começo de uma nova forma de habitar o Planeta Terra”.
